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Audiência pública: Com baixo repasse, Santa Casa tem déficit de R$ 158 milhões
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Maior hospital de Mato Grosso do Sul, a Santa Casa de Campo Grande enfrenta situação financeira crítica, com déficit anual de R$ 158,85 milhões. O número resulta da desproporção entre os valores recebidos pelo hospital e os custos que precisa arcar. O problema foi debatido na tarde desta segunda-feira (17) na Assembleia Legislativa (ALEMS) na audiência pública “A crise dos Hospitais Filantrópicos e o atendimento na Santa Casa de Campo Grande: debates e soluções”.

Proposta pelo deputado Pedrossian Neto (PSD), a audiência pública lotou o plenário Júlio Maia e o saguão Nelly Martins, na ALEMS, com participação de profissionais da Saúde, representantes da Santa Casa e de outros hospitais filantrópicos, do Governo, parlamentares e outros atores envolvidos. Coordenador da Frente Parlamentar de Defesa das Santas Casas e presidente da Comissão Permanente de Finanças e Orçamento, Pedrossian Neto defendeu a recomposição inflacionária dos convênios Sistema Único de Saúde (SUS) como forma de equilibrar as contas do hospital, entre outras propostas.
“A Santa Casa tem custo mensal de R$ 45 milhões e consegue auferir em receita da União, do Estado e do Município de Campo Grande apenas 32 milhões aproximadamente. E eu pergunto como uma instituição faz para continuar aberta precisando, a cada mês, de R$ 13 milhões”, questionou Pedrossian Neto. O problema decorre, entre outros fatores, do congelamento das fontes de financiamento.
Conforme números apresentados pelo deputado Pedrossian Neto, as perdas acumuladas desde 2017 somam R$ 213 milhões em se tratando apenas o repasse do município de Campo Grande à Santa Casa (veja documento na íntegra). Nesse resultado, o parlamentar considerou a variação do IPCA e a produção hospitalar. O repasse anual deveria ser, nesse caso, de R$ 126,79 milhões. Levando em conta somente a inflação, deveria ser de R$ 87,51 milhões. E o valor, realmente repassado, é de R$ 63,11 milhões.
“Vocês conseguem viver com o mesmo salário que recebiam em 2017?”, perguntou Pedrossian Neto e completou, aludindo à obviedade da resposta: “A Santa Casa também não”. Ele disse que o valor atualizado a partir da inflação e da produção pode ser difícil de ser repassado. “Mas, devemos reajustar com base na inflação”, propôs. “Seria demais pedir reposição da perda inflacionária?”, questionou.

Todos os setores e especialidades no vermelho
O detalhamento da situação financeira da Santa Casa foi apresentado pelo diretor técnico da Santa Casa, William Leite Lemos Júnior. Com base em dados de 2024, ele informou que a receita anual do hospital é de R$ 383,579 milhões e os custos fixos e variáveis somam R$ 542,438 milhões, resultando em saldo negativo de R$ 158,858 milhões. Mensalmente, o déficit é de R$ 13,238 milhões.
A conta não fecha em todos os setores e especialidades. Na ginecologia e obstetrícia (parto), por exemplo, déficit anual é de R$ 7,2 milhões e, por mês, de R$ 600,35 mil. Na hemodiálise, o resultado anual é negativo em R$ 1,3 milhão; na linha de transplante renal, de R$ 1,05 milhão; na oncologia ambulatorial, de R$ 579,19 mil. O Pronto-Socorro da Santa Casa tem saldo negativo anual de R$ 26,14 milhões e a UTI Congênita, de R$ 4,54 milhões.
Confira a apresentação com os números da Santa Casa.
Em razão desse descompasso, a Santa Casa tem dívida próxima a R$ 70 milhões. “Esse é o valor devido a fornecedores, prestadores de serviço, prestadores médicos, fornecedores de medicamentos, materiais especiais, órteses e próteses, que são os que infelizmente estão custeando a saúde da população, porque se o contrato não tem o equilíbrio necessário para que ele seja mantido, alguém vai deixar de ser pago”, disse William Leite.
Essa situação está sendo discutida entre a Santa Casa, o Governo do Estado e o Ministério Público Estadual, segundo foi informado pelo diretor William Leite e outros participantes da audiência. “Estamos trabalhando já há alguns meses com o Poder Público, incluindo aí o Ministério Público para que possamos mediar essa situação. Todos os números foram apresentados para o secretário estadual e para a secretária municipal de Saúde”, completou.
Problemas são complexos e vão além da Santa Casa
A situação é complexa e vai além da Santa Casa de Campo Grande, conforme comentou a presidente do hospital, Alir Terra Lima. “Não adianta resolvermos só o problema de Santa Casa de Campo Grande e não resolvermos os dos demais hospitais. Continuando eles com dificuldades, vão continuar aportando as ambulâncias na porta da Santa Casa. E nós não podemos deixar de atender os pacientes. Estamos todos no mesmo barco”, considerou a presidente.

Alir Terra também enfatizou que a Tabela SUS não condiz com as necessidades reais dos hospitais filantrópicos e que o problema é sistêmico. “A Tabela SUS, que foi aprovada em 2007 e promulgada em 2008, é impraticável para os hospitais filantrópicos. Não cobre os custos do que nós atendemos. Aqui ninguém está procurando culpados. É um sistema. E esse sistema precisa ser modificado. Se isso não acontecer, vamos perder vidas”, alertou.
Mesmo entendimento quanto à complexidade do problema tiveram outros participantes da audiência pública, como o secretário estadual de Saúde, Maurício Simões Corrêa. “Temos que encarar essa discussão com maior pragmatismo e entender que as situações apontadas aqui são diversas, múltiplas e não se encontrará uma única solução que resolverá cada um dos problemas. É preciso compreender que problemas complexos não tem soluções simples”, disse.
Possíveis saídas
Entre as alternativas para reduzir a crise financeira da Santa Casa, está a possibilidade de recebimento de emendas federais no valor de R$ 25 milhões, o que está sendo tratado em conversa do Governo estadual com parlamentares, segundo mencionou o secretário Maurício Simões. Também foi proposto esforço dos entes federados para aumentar os valores repassados à Santa Casa. No caso do município de Campo Grande, há a possibilidade de majoração da média de R$ 5 milhões para R$ 7 milhões em repasses.

Também foi proposto pelo deputado Pedrossian Neto a criação de um grupo de trabalho, em nível estadual, para debater novos modelos de remuneração para serviços de saúde. Nesses modelos, segundo sugere o parlamentar, deve-se considerar “práticas mais modernas e eficientes, que garantam não somente a remuneração justa aos prestadores, mas o atendimento mais eficaz disponível aos pacientes e usuários do sistema”.
O deputado também propôs a participação de Mato Grosso do Sul no grupo de trabalho criado pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para aprimorar a forma como os serviços hospitalares são contratualizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em todo o país. Pedrossian Neto também destacou proposta de sua autoria, que tramita na ALEMS. Trata-se do Projeto de Lei Complementar 07/2024, que garante isenção de ICMS para aquisição de equipamentos, insumos e medicamentos realizadas por hospitais filantrópicos e no consumo de energia elétrica. “Devemos dar o mesmo tratamento que é dado a empresas privadas [que têm incentivos fiscais]. Isso é isonomia”, defendeu o deputado.
Participação e cobertura
Também participaram da audiência os deputados estaduais Professor Rinaldo Modesto (Podemos) e Mara Caseiro PSDB), o deputado federal Dr. Luiz Ovando, a secretária municipal de Saúde de Campo Grande, Rosana Leite, o presidente da Federação das Santas Casas, Hospitais e Instituições Filantrópicas e Beneficentes de Mato Grosso do Sul, Marco Antônio Calderon de Moura, entre outras autoridades.
A audiência contou com cobertura da Comunicação Institucional da ALEMS, com transmissão ao vivo. Além de lotar o plenário, o evento teve participação significativa nas mídias sociais do Parlamento (YouTube e Facebook). Confira abaixo a reunião na íntegra:
SAÚDE
Nova arquitetura e conceito: Governo apresenta aos deputados expansão da infra e desafios da saúde em MS
A nova arquitetura da saúde regional, com avanços na regionalização da atenção hospitalar de Mato Grosso do Sul, uma das prioridades do Governo do Estado, com melhorias na entrega final, que vai beneficiar a população nos 79 municípios, bem como a proposta de uma PPP (Parceria Público Privada) no HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul), foram apresentadas aos deputados estaduais na manhã desta quarta-feira (4), na Assembleia Legislativa, pelo governador Eduardo Riedel e pelos secretários Maurício Simões (Saúde) e Eliane Detoni (Parcerias Estratégicas).
“Este é um momento da maior importância para nivelar o conhecimento, tirar as dúvidas, pois algumas informações divulgadas não estão vinculadas aos fatos. O projeto foi estudado com muito critério, estamos há dois anos mergulhados com todos os indicadores desse processo para nos dar subsídio, para poder construí-lo. A gente acredita que esse conhecimento deu o embasamento para o projeto”, explicou o governador, ao detalhar planos e especificidades das melhorias na saúde pública estadual.
Para melhorar a situação hospitalar atual, com foco no crescimento da demanda futura, o Governo do Estado estabelece um “novo cinturão da saúde”, levando em consideração a capacidade de atendimento de cada unidade – média e alta complexidade. O objetivo principal é a melhoria do serviço prestado ao cidadão.
“A atenção hospitalar é parte da assistência à saúde. Mas é uma parte muito importante e que nós temos carência de leitos, principalmente hospitalares de alta complexidade. E ali é que entra, então, a parceria público-privada do hospital. E tudo começou com o plano diretor de regionalização da saúde no Estado. Nós procuramos considerar inúmeros indicadores de cada município e região, para que a gente pudesse acompanhar as mais fortalecidas”, explicou Simões.
A PPP do HRMS, que faz parte do projeto de regionalização da atenção hospitalar no Estado, prevê a expansão da infraestrutura com impacto direto nos indicadores de saúde, principalmente o aumento na produtividade com previsão de crescimento de 96% das internações, que podem passar de 1,4 mil para mais de 2,7 mil por mês. Também existe a expectativa de economia de 35% por internação, além de aumento de leitos que vão passar de 362 para 577.
“O que a gente pretende sempre é melhorar a prestação de serviço público para o cidadão e, nesse caso, para que a gente consiga manter um atendimento 100% SUS, gratuito e universal. Então, é bom a gente deixar claro que o Hospital Regional, ele se mantém gratuito”, disse a secretária especial de Parcerias Estratégicas, Eliane Detoni.
Todos os serviços não assistenciais, chamados de “bata cinza” serão executados pelo futuro parceiro privado, como nutrição, limpeza, lavanderia, manutenção predial, e tudo que envolve o funcionamento físico e estrutural do hospital – apoio médico, administrativo, fornecimento de insumos, recepção, portaria, entre outros.
“Nosso desafio é planejar uma estratégia hospitalar hierarquizada e regionalizada para o estado de Mato Grosso do Sul. E isso é resultado da complexa interação de processos econômicos, políticos e sociais. E a gente fez isso sem esquecer que o Estado está passando uma Rota Bioceânica e Rota da Celulose, dois processos de desenvolvimento muito importantes”, disse o secretário da SES (Secretaria de Estado de Saúde.
Além de terem oportunidades de tirarem dúvidas sobre o projeto de regionalização e também sobre a PPP do HRMS, os parlamentares destacaram a competência do projeto apresentado, e elogiaram o modelo de atenção à saúde proposto com vista na melhoria do serviço prestado ao usuário.
“Momento importante para os deputados apreciarem a proposta, fizemos essa proposição ao Executivo e hoje agradecemos a apresentação. Entendemos que é um projeto estruturado e muito bem estudado, com critérios”, disse o presidente da ALEMS, Gerson Claro.
Macrorregiões
Como parte do projeto de regionalização, as macrorregiões do Cone Sul – Hospital Regional de Dourados -, Costa Leste – Hospital Regional Magid Thomé (Três Lagoas) – e do Pantanal – onde será construído um hospital em Corumbá -, além de Ponta Porã e Campo Grande, também terão serviços e leitos expandidos nos próximos anos, intensificando oferta de cirurgias e exames de média e alta complexidade.
Natalia Yahn, Comunicação Governo de MS
Fotos: Álvaro Rezende
ATENÇÃO: confira aqui o pack imprensa com as imagens da reunião com os deputados


